segunda-feira, 8 de maio de 2017

Mudança

Ouvi diversas vezes você me jurar: "por favor, não vá, eu vou mudar". Mas perceba: eu não preciso que você mude por mim, eu só gostaria de mudar em você. Eu gostaria de abandonar essa sina de me sentir vazio sem ter o que tornar em seguida, como eu me senti íntegro enquanto eu desejei mudar em você. Eu acreditei que eu poderia ser tão ingênuo.
Não tem nada a ver com você ser o suficiente para mim. É só uma questão que eu não sou suficiente para mim mesmo, e dessa forma eu quis absorver você para mim. Me perdoe se eu nunca te perguntei se era esse o seu desejo, ser absorvida por mim.
Eu gostaria que você não se sentisse inferior por não conseguir me fazer ser completo. Em uma outra vida, quem sabe, eu abandone esse vampirismo que me faz querer usar o seu sangue para alimentar a minha falta de propósito. Não é sua culpa.
Tampouco eu desejei que você se tornasse outra pessoa, mas eu me perdi, porque você mudou. Você diz que sou um inquisidor, mas não sou. Estou tentando trazer alguma objetividade ao dilema da mudança que se impõe sobre nós. Eu te acuso de ser instigadora e instável, mas a verdade é que eu só queria existir por mim mesmo todo o tempo. Eu queria ser como você.
Eu critico o fato de você se esconder atrás de tanta maquiagem, mas eu e você odiamos todos os subterfúgios que eu uso para nunca mostrar um rosto. Eu então te peço, "por favor, não vá, eu vou mudar". Se eu te disser isso outras vezes, mesmo que eu te convença, eu mentirei em todas elas. Eu não sei mudar, como você mudou. Não é minha culpa. Não há um "eu" sólido para mudar.

Não se prenda a mim. Não há o que se prender em mim. Eu te farei esperar para sempre que essas coisas se transformem em mim, em algo que eu possa chamar de personalidade. Se eu te disser que eu vou me curar dessas mudanças, não acredite. Então mude você mesma, e se encontre confortável em estar consigo mesma. Eu nunca estarei com você. Eu nunca estarei comigo; eu nunca estarei. Eu estarei sempre mudando de contradição. E esse paradoxo que sou hoje não durará, então eu lhe peço: “não vá”, mas vá agora. E não faça por mim o que eu não faria por ninguém.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Salute

Eu abri a tampa do notebook, e em seguida tirei a poeira que se acumulava nele. Faz um tempo que não me atrevo a abri-la, como uma cópia da Bíblia que guardasse na gaveta por anos, presente da minha mãe, e na qual eu buscaria um pouco de paz num momento de dificuldade. Mas eu não sou católico. E este não é um momento de dificuldade.
Viver desse jeito deixou de ser uma dificuldade há muito tempo. Faz muito tempo que eu não abro essa gaveta, não busco essa Bíblia, e eu não queria faze-lo, mas hoje eu me vi na minha cama – minha nova cama, outra cama, diferente daquela em que eu li aquela versão do Evangelho pela primeira vez – e aquela sensação me veio novamente. Não é a primeira vez que eu me distanciei do hábito de te escrever, nem vai ser a última, e sempre que isso acontece, bem, eu vejo minhas mãos se impregnarem da poeira. Porque eu tenho sido relapso, e eu sei que confessar você deveria ter sido um hábito durante todos esses anos, mas a questão é que eu não fui eu durante uma boa parte de todos esses anos. Eu copiei muitas coisas durante todos esses anos, tentando ser outra pessoa, e eu confesso que estou cansado da pessoa que eu tentei ser.
O mais estranho é que toda vez que eu busco confessar você, minhas mãos ficam sujas com essa sua poeira, como se não fosse eu a transmitir em você, e sim o contrário. Como se eu fosse fugir para outro lugar, e minhas mãos ficassem sujas dessa culpa de não ter sido eu mesmo por todos esses anos. E pela primeira vez em tantos anos, eu parei para pensar de verdade no que eu estava fazendo aqui. Pensei duramente sobre qual era minha luta aqui. Eu nunca tive um momento de dificuldade genuíno, então qual é a minha contenda?
Eu creio que minha luta seja a mesma de todos esses anos em que eu menti ser outra pessoa, copiei outras pessoas. Não era o que eu tinha planejado para mim, mas quem planejaria cometer um erro? Eu não saberia ser eu mesmo naquela época. Então me perdoe, mesmo sabendo que nada vai mudar, que eu nunca vou mudar. Minha luta ainda é sobre ser uma pessoa em singular. Portanto eu me apresento aqui, nesse território familiar, para travar essa luta tão fraterna, que eu conheço de maneira tão íntima.

Eu nunca mais vou te abandonar.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Meia-Noite

Eu gostaria de te convidar a me encontrar agora, antes que o tempo nos alcance. Só pra que nós conversemos.
Porque eu gostaria de conversar sobre o medo, sobre heróis, sobre flores, sobre as garotas... Sobre o tempo que passa e ameaça nos passar, nos deixar pra trás, nos alcançar. Sobre a alegria e a loucura que tomam conta de mim às vezes, quando eu lembro de você. Sobre aqueles planos que eu fiz e joguei fora, pra que carregasse menos peso e pudesse correr mais rápido que o tempo que me intimidava. Sobre garrafas vazias de vinho, sobre porque nós preferimos a noite e porque não contamos pra ninguém quando hoje é nosso aniversário.
Porque eu gostaria de falar sobre mim, sobre você, sobre tudo. Sobre a forma como levamos nossas vidas. Você é diferente de mim, e nós dois de todos os outros, e levamos vidas tão diferentes uns dos outros, e mesmo assim, às vezes nós festejamos como se desejássemos a mesma coisa. Não é tão bonito como nós somos tão diferentes e ainda assim festejamos as mesmas coisas?
Essa primeira dúzia de coisas sobre as quais eu admito que gostaria de conversar com você podem até amanhecer em cinzas, porque essa é a ordem natural das coisas. Eu gostaria de conversar com você sobre a ordem natural das coisas, e como as coisas estão se tornando pó a cada momento que passa. Mas não hoje.
Talvez amanhã.
Certamente amanhã.
Por hoje, eu queria me perder nessa meia-noite, em que nós nos encontraríamos pra falar de nós, sobre como as pessoas envelhecem e sobre como elas se perdem no meio da euforia e nunca mais encontram o caminho pra casa. Sobre como o tempo não nos permite quase nada, e como eu gostaria que nós nos permitíssemos agora, somente por esta meia-noite.