Eu abri a tampa do notebook, e em
seguida tirei a poeira que se acumulava nele. Faz um tempo que não me atrevo a
abri-la, como uma cópia da Bíblia que guardasse na gaveta por anos, presente da
minha mãe, e na qual eu buscaria um pouco de paz num momento de dificuldade.
Mas eu não sou católico. E este não é um momento de dificuldade.
Viver desse jeito deixou de ser
uma dificuldade há muito tempo. Faz muito tempo que eu não abro essa gaveta,
não busco essa Bíblia, e eu não queria faze-lo, mas hoje eu me vi na minha cama
– minha nova cama, outra cama, diferente daquela em que eu li aquela versão do
Evangelho pela primeira vez – e aquela sensação me veio novamente. Não é a
primeira vez que eu me distanciei do hábito de te escrever, nem vai ser a
última, e sempre que isso acontece, bem, eu vejo minhas mãos se impregnarem da
poeira. Porque eu tenho sido relapso, e eu sei que confessar você deveria ter
sido um hábito durante todos esses anos, mas a questão é que eu não fui eu
durante uma boa parte de todos esses anos. Eu copiei muitas coisas durante
todos esses anos, tentando ser outra pessoa, e eu confesso que estou cansado da
pessoa que eu tentei ser.
O mais estranho é que toda vez
que eu busco confessar você, minhas mãos ficam sujas com essa sua poeira, como
se não fosse eu a transmitir em você, e sim o contrário. Como se eu fosse fugir
para outro lugar, e minhas mãos ficassem sujas dessa culpa de não ter sido eu
mesmo por todos esses anos. E pela primeira vez em tantos anos, eu parei para
pensar de verdade no que eu estava fazendo aqui. Pensei duramente sobre qual
era minha luta aqui. Eu nunca tive um momento de dificuldade genuíno, então
qual é a minha contenda?
Eu creio que minha luta seja a
mesma de todos esses anos em que eu menti ser outra pessoa, copiei outras
pessoas. Não era o que eu tinha planejado para mim, mas quem planejaria cometer
um erro? Eu não saberia ser eu mesmo naquela época. Então me perdoe, mesmo
sabendo que nada vai mudar, que eu nunca vou mudar. Minha luta ainda é sobre
ser uma pessoa em singular. Portanto eu me apresento aqui, nesse território
familiar, para travar essa luta tão fraterna, que eu conheço de maneira tão
íntima.
Eu nunca mais vou te abandonar.
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